quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Fale por mim aí, Chico.

Você que inventou o pecado, esqueceu-se de inventar o perdão.
Apesar de você, amanhã há de ser outro dia.
Eu pergunto a você onde vai se esconder da enorme euforia?
Como vai proibir quando o galo insistir em cantar?
Água nova brotando e a gente se amando sem parar.
Quando chegar o momento, esse meu sofrimento, vou cobrar com juros. Juro!
Todo esse amor reprimido, esse grito contido, esse samba no escuro.
Você que inventou a tristeza, ora, tenha a fineza de "desinventar".
Você vai pagar, e é dobrado, cada lágrima rolada nesse meu penar.
Apesar de você, amanhã há de ser outro dia.
Ainda pago pra ver o jardim florescer, qual você não queria.
Você vai se amargar vendo o dia raiar, sem lhe pedir licença.
E eu vou morrer de rir, e esse dia há de vir antes do que você pensa.

Apesar de você, amanhã há de ser outro dia.
Você vai ter que ver a manhã renascer e esbanjar poesia!
Como vai se explicar vendo o céu clarear, de repente, impunemente?
Como vai abafar nosso coro a cantar, na sua frente?
Apesar de você, amanhã há de ser outro dia, você vai se dar mal, etc e tal. 
(Apesar de Você - Chico Buarque)

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